Empresas captam R$ 176 bilhões nos mercados capitais locais e internacional

As empresas brasileiras captaram R$ 176,3 bilhões nos mercados de capitais local e internacional, entre ofertas de ações e renda fixa, no acumulado do ano até setembro. O volume representa crescimento de 32% na comparação com igual intervalo de 2016, segundo dados divulgados ontem pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).



O destaque ficou por conta da renda variável, com um volume total de emissões de R$ 26,8 bilhões, melhor resultado desde 2010, ano em que foi registrado um volume de R$ 150,2 bilhões, influenciado principalmente pela capitalização da Petrobras. Do total registrado entre janeiro e setembro de 2017, R$ 14,1 bilhões foram provenientes de ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) e R$ 12,7 bilhões de ofertas subsequentes (follow-on). No mesmo período do ano passado, o volume alcançou R$ 7,9 bilhões, resultante apenas de operações follow-on.



A renda fixa doméstica liderou as emissões do período, com volume de ofertas de R$ 86,2 bilhões ante R$ 60,7 bilhões no mesmo período de 2016, o que representa um aumento de 42% na comparação anual.



A Anbima destacou a forte demanda de investidores institucionais e pessoas físicas por títulos de renda fixa como debêntures, certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) e certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs).



A participação dos investidores institucionais na captação doméstica via debêntures, por exemplo, aumentou de 19,8% de janeiro a setembro do ano passado para 65,7% no mesmo intervalo neste ano. A de pessoas físicas, por sua vez, subiu de 2% para 3,7% no mesmo período. Já a fatia de intermediários e demais participantes ligados à oferta caiu de 78,2% para 30,6%. Até setembro o volume total de debêntures alcançou R$ 50,4 bilhões.



No caso da emissão de debêntures de infraestrutura, a participação das pessoas físicas como subscritores foi a única que cresceu, saindo de 25,4% para 38,2%. A de investidores caiu de 41,3% para 37,9% na comparação anual. Já a parcela de intermediários e demais participantes ligados à oferta saiu de 33,3% para 23,9%. Até o terceiro trimestre, o volume de ofertas de debêntures de infraestrutura saltou 166%, para R$ 4,7 bilhões.



Para José Eduardo Laloni, diretor da entidade, a expectativa é de um "pipeline robusto" até dezembro no caso das debêntures, levando em conta o movimento das emissões até o momento.



"Os bancos estão tendo participação cada vez menor, enquanto os investidores institucionais e as pessoas físicas, destinatários finais, estão ganhando bastante relevância no mercado", afirmou o diretor. "Comemoramos um ano do mercado de capitais bem melhor do que os anos anteriores", acrescentou.



No segmento de securitização, o volume de emissões de CRIs se reduziu em 49,6% nos primeiros nove meses de 2017 ante o mesmo período do ano passado, para R$ 4 bilhões. No entanto, houve aumento do interesse das pessoas físicas, que antes eram 14,3% dos investidores e agora são 46,4%. Por outro lado, o volume dos CRAs cresceu 23,4% até setembro, na comparação com igual período de 2016, para R$ 7,7 bilhões. A maioria dos subscritores também são pessoas físicas, com 86% de participação.



Segundo Laloni, fundos de investimento, gestoras e assets são a melhor forma de "canalizar a demanda das pessoas físicas para o mercado de capitais", já que através deles seria feita uma análise de quais as aplicações mais adequadas para cada investidor, avaliando os prazos e eventuais isenções de imposto de renda, como acontece nos CRIs e CRAs.



O volume de notas promissórias emitidas entre janeiro e setembro também mereceu destaque. Com R$ 15,7 bilhões, esse foi o maior resultado desde 2014.



A renda fixa externa registrou um volume de R$ 63,1 bilhões. Na conversão em dólares, as captações feitas no exterior atingiram US$ 21 bilhões, sendo US$ 1,3 bilhões provenientes de emissões de renda variável (ADRs e GDRs) e US$ 19,7 bilhões de renda fixa, como bônus e securitização. Em relação ao mesmo período do ano passado, a captação externa teve alta de 11%. Em 2016, os US$ 19 bilhões movimentados foram provenientes de emissões em renda fixa.



Embora os dados divulgados até o terceiro trimestre deste ano das emissões no mercado de capitais mostrem que o ambiente está melhor do que nos últimos anos, o mercado de capitais brasileiro ainda precisa pensar mais a longo prazo, afirmou Laloni. "Nesse sentido, temos conversado com o BNDES sobre a nova forma de atuação do banco, deixando de ser o único protagonista das operações de financiamento de longo prazo. Achamos isso muito importante", disse. Ele afirmou também que os investidores estão se capacitando mais para aplicar em prazos maiores.



Segundo o diretor, os fundos de pensões e outros "investidores de longo prazo" precisam vir mais para o mercado de captais, já que passaram os últimos anos investindo muito em títulos públicos. A expectativa é que esses grupos passem a complementar "e se tornem protagonistas" do mercado daqui em diante.



"Se tivermos ambiente favorável de política econômica, a expectativa é muito boa. A perspectiva de alongamento [de dívida] já diz muito isso. Os investidores institucionais estão saindo do curtíssimo prazo da renda fixa; começar a correr risco de crédito privado é imperativo com a Selic no patamar que está", disse. "Só inflação baixa e juro baixo já concentra um monte de problema".


Laloni pontuou que o ambiente externo favorável indica boas expectativas. "O aumento de juros lá fora era algo que preocupava, mas acabou sendo moderado. Estamos aliando um cenário externo muito favorável e um interno também".

 

Fonte: Valor Econômico