Área de Contratação Livre de Energia têm expansão recorde em 2018 após ano de bonança

Por Luciano Costa
SÃO PAULO, 8 Jan (Reuters) – O setor de comercialização de
energia elétrica teve crescimento recorde em 2018, quando 51
novas comercializadoras foram abertas, em movimento puxado pelo
investimento de empresas e executivos na criação de novas
companhias após o setor registrar lucros históricos em 2017,
disseram à Reuters especialistas e operadores do mercado.
O número de comercializadoras em operação fechou o ano
passado em 270, um salto de 23,3 por cento frente a 2017,
segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica
(CCEE), enquanto o índice de liquidez das operações no setor
cresceu quase 44 por cento desde janeiro de 2018.
As comercializadoras atuam no chamado mercado livre de
eletricidade, onde empresas podem fechar contratos de suprimento
diretamente com os fornecedores. Elas podem tanto intermediar
negócios entre geradores e consumidores quanto fechar transações
apenas apostando na alta ou na baixa dos preços, entre outras.
"Nesses últimos dois anos, principalmente em 2017, o mercado
de comercialização foi muito promissor em termos de
lucratividade para as empresas. Esse movimento de 2018 é
resultado disso", afirmou o presidente da Comerc Energia,
Cristopher Vlavianos.


Ele explicou que muitas empresas tradicionais no setor
aproveitaram para lançar novas iniciativas, como a própria
Comerc, que abriu a comercializadora NewCom junto a novos
sócios, enquanto executivos e operadores do mercado também
investiram na abertura de seus negócios.
"Houve muitas 'dissidências' de comercializadoras, em que se
juntam 3, 4, 5 ou 6 profissionais e saem para fazer uma outra
empresa. Tivemos diversos casos desses no ano também."
Um exemplo é a Quantum Energias, fruto da associação entre
profissionais que deixaram empresas como Eneva e Votorantim
Energia e executivos que se juntaram à empreitada como
investidores financeiros.


O grupo investiu um total de 10 milhões de reais na empresa,
que com apenas oito pessoas faturou 450 milhões de reais no ano
de estreia, com foco nas operações de compra e venda de energia,
o chamado "trading", segundo o sócio Henrique Kido, responsável
pela área de Preços.
"Nossa casa é uma casa de 'trading'. Acho que de 90 a 95 por
cento das novas comercializadoras abertas em 2018 são de
'trading'", afirmou.
Segundo dados compilados pela Quantum, a empresa foi líder
em volume entre as comercializadoras abertas em 2018, enquanto o
ranking geral foi dominado por grandes grupos– com os braços de
comercialização das elétricas europeias Engie e EDP, do banco
BTG Pactual e da Votorantim, além da Nova Energia, que tem como
sócio o banco de investimento australiano Macquarie.

 

TRADING EM ALTA
A tendência das comercializadoras de focar nas operações de
compra e venda marca uma virada frente ao passado, quando as
primeiras empresas do setor apostavam principalmente na
intermediação de negócios entre geradores e consumidores.
O novo padrão tem gerado uma aproximação entre as
comercializadoras e o setor financeiro, dada a semelhança entre
as negociações com eletricidade e outros mercados, como os de
commodities.
A proximidade já é inclusive física, com boa parte das
comercializadoras já existentes e abertas em 2018 concentradas
na região da avenida Faria Lima e da Vila Olímpia, em São Paulo,
bairros vistos como centros financeiros da capital paulista.
"Só tem comercializadoras de energia e corretoras por aqui",
brincou Thiago Gonçalves da Silva, sócio-diretor da Ideal
Energia, inaugurada em 2018 e que se associou ao longo do ano
com o Banco Máxima.


O banco Santander também abriu uma comercializadora de
energia própria em 2018, em mais um sinal do interesse do
mercado financeiro nas transações com energia.
Para o presidente do Conselho da CCEE, Rui Altieri, há
espaço para uma aproximação ainda maior entre os setores nos
próximos anos.
"O mercado financeiro está começando a olhar o mercado
elétrico com outros olhos", afirmou.
Ele ressaltou, no entanto, que o aprofundamento da aposta do
mercado financeiro em energia deverá depender também do rumo de
reformas prometidas pelo governo, que incluem possíveis regras
para uma gradual expansão do mercado livre de energia.
O mercado livre é restrito atualmente a grandes
consumidores, como indústrias, mas uma proposta lançada pela
gestão Temer previa reduzir entre 2020 e 2026 as exigências para
que um cliente entre no segmento.
Após a posse do presidente Jair Bolsonaro, o novo ministro
de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, disse que
pretende "modernizar" a regulamentação do setor, mas não entrou
em detalhes.

 

Fonte: Último Instante - 08/01/2019