Novas formas de financiar renováveis no mercado livre

 

O horizonte de abertura gradual e completa para o mercado livre de energia se reflete no número crescente de estruturação de projetos de renováveis 100% contratados neste ambiente. Um estudo da assessoria especializada Clean Energy Latin America, a CELA, identificou que há no momento 58 PPAs de projetos fotovoltaicos sendo estruturados no país no ACL. Em eólicas, um levantamento da consultoria ePower Bay mostra que, apenas no primeiro semestre de 2019, 11 projetos foram anunciados, totalizando 1.036 MW de potência.

 

 

A movimentação logicamente tem provocado mudanças significativas na oferta de financiamento, a começar pelo BNDES, que anunciou no fim do ano passado estar para colocar em prática a sua nova metodologia baseada em preço suporte e que permite estruturar no longo prazo contratos do mercado livre, cujos PPPAs são de no máximo cinco anos. O banco analisa 13 projetos com essa sistemática, com total de 2,7 GW, sendo 818 MW de eólicas e os demais de solar e PCHs.

 

 

Não é apenas no banco de fomento que há novidades. O aumento do uso de debêntures incentivadas de infraestrutura (regulamentadas pela lei 12.431/11) é outro marco dessa nova onda. Segundo boletim do Ministério da Economia, em 2019, até novembro, por conta do ambiente macroeconômico favorável, houve recorde de emissões, de R$ 27,5 bilhões, sendo R$ 22,5 bilhões em projetos de energia. Em 2018, o total foi de R$ 21,6 bilhões (R$ 19,3 bilhões em energia).

 

 

Para especialistas na estruturação de projetos de renováveis, como a diretora da CELA, Camila Ramos, a previsão é que outras alternativas surjam, provavelmente no decorrer do ano, para suprir a demanda em explosão. Por parte de bancos, facilitação para financiar no ACL clientes com bom histórico de pagamentos no ACR e PPAs atrelados a dólar são dois exemplos. Para entender o novo panorama, a Brasil Energia conversou com a executiva.

 

 

As emissões de debêntures incentivadas, para financiar projetos de renováveis, cresceram muito nos últimos dois anos. A que se deve esse movimento?

 

As debêntures são interessantes por serem customizáveis, sem condições fixas, e ajustadas conforme o perfil do emissor, ofertando sempre bom rating, prazos longos. Mas o motivo mais forte, principalmente a partir do primeiro semestre de 2019, foi o seu custo competitivo, possível graças aos bons indicadores macroeconômicos. A CELA mesmo fez uma assessoria para um projeto eólico no meio do ano, um complexo de aproximadamente 140 MW, que usou captação com debêntures incentivadas com custo de IPCA mais 4,24%, fazendo frente ao financiamento do BNDES, cujo spread atual está em 4,58% ao ano. Por isso a emissão tem sido sempre estudada nos projetos.

 

 

Mas elas servem para qualquer projeto?

 

Não. O lado negativo das debêntures incentivadas é que elas são emitidas apenas depois da entrada em operação da usina, para custear dívidas e despesas do empreendimento. Não é um recurso que o investidor pode contar para a construção de um complexo novo. Portanto, caso ele use as debêntures na estruturação financeira, será necessário outro recurso para a construção, seja um empréstimo-ponte, equity, o que a empresa dispuser. O que ficou muito claro, até agora, no financiamento dos parques de energia renovável, é que as debêntures são mecanismos para financiar projetos finais, já construídos. Escutamos os bancos falarem que é possível estruturar um projeto completo, mas aí precisa ver se o risco de crédito mudaria a ponto de deixar essa debênture não tão competitiva.

 

 

Apesar disso, as emissões devem se manter em alta?

 

Na verdade os bancos não acreditam que essa onda vá continuar no mesmo ritmo de 2019, que teve recorde de emissões. Na análise corrente dos bancos, o desempenho teve explicação conjuntural, específica do período, e se deve à forte migração do investidor de títulos públicos para o crédito privado, sobretudo no primeiro semestre. A partir daí foram criados novos fundos, que levaram ao crescimento de demanda por esse tipo de papel privado, que por sua vez gerou uma redução no custo da emissão. Foi ficando mais barato para as empresas captarem, mas ao mesmo tempo o retorno passou a ficar menor para o investidor. Vamos ver se esse movimento vai frear as emissões em 2020.

 

 

Se as debêntures perderem o ritmo, as linhas tradicionais para renováveis, BNDES e BNB, vão conseguir atender os projetos, principalmente os cada vez mais frequentes voltados para o ACL?

 

 

Acredito que sim. A boa notícia para 2020 é a nova metodologia de financiamento por preço suporte do BNDES, que mostra que o banco quer se posicionar como uma opção viável para financiar energia renovável no ACL. O preço suporte alto [R$ 90/MWh] vai permitir que o banco aprove financiamentos de longo prazo para projetos do mercado livre, mesmo com os PPAs de cinco anos desse ambiente, fazendo rolagem dos contratos com a projeção de preço futuro embutida na modelagem.

 

 

E o BNB?

 

Além de ter o custo mais competitivo [IPCA + 1,4945% ao ano para grandes empresas], o banco tem buscado outras formas de financiar projetos 100% no mercado livre. Uma delas é priorizar empresas que já tenham histórico de pagamentos de financiamento no banco em projetos do mercado regulado. O banco se baseia na boa reputação de pagador do cliente no ACR para liberar financiamentos de PPAs assinados no ACL. Apesar da vantagem de custo e dessas ferramentas para fomentar projetos no Nordeste, o único problema do BNB é sua restrição de volume de financiamento, que neste ano se esgotou muito rápido. Para todos os setores de infraestrutura, o banco tinha disponível R$ 8,5 bilhões, o que é pouco para a demanda.

 

 

Há outras opções para aumentar esse volume de recursos para projetos no ACL?

 

Em 2020 há uma probabilidade de serem estruturados PPAs atrelados a dólar. Sabemos que há muitos empreendedores se debruçando sobre o tema, mais do que antes, e a questão da limitação de recursos do BNB e de possível aumento de custo do BNDES podem fazer com que financiamentos estrangeiros sejam mais competitivos.

 

 

Quais seriam as vantagens desses PPAs em dólar?

 

 

Eles podem ser vantajosos para alguns compradores de energia estrangeiros que preferem minimizar suas despesas em reais por exemplo. Além disso, tendo uma receita (PPA) e investimento em dólares – em equipamentos importados por exemplo, o que é ainda mais relevante para solar do que para a eólica – é importante ter um financiamento também na mesma moeda para minimizar o risco de câmbio. Isso torna a estruturação financeira muito competitiva. O que falta para esses PPAs se materializarem é estruturar juridicamente os contratos, o que não é trivial, e também ter compradores de energia interessados, claro.

 

Escrito por: Marcelo Furtado

Fonte: Brasil Energia

Link da notícia:https://editorabrasilenergia.com.br/novas-formas-de-financiar-renovaveis-no-mercado-livre/